Das coisas chocantes

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Hoje é segunda-feira e não queria começar a semana a falar de temas deprimentes ou chocantes, mas deparei-me com esta notícia e não podia deixar de a partilhar. 

Existe muita coisa no mundo que me choca, mas da lista dos problemas humanitários que mais me revoltam, acho que aqueles onde as crianças são as principais vítimas são aqueles que estão no topo da minha lista. Falo de violações, prostituição, maus tratos, trabalho forçado e escravidão, violação de direitos humanos em geral.

Nesta notícia, tive conhecimento deste vídeo no Youtube, publicado pela Nada al-Ahdal, uma criança de 11 anos, onde denunciava a tentativa da sua família de a querer "vender" num casamento forçado.




A menina do Iémen diz no vídeo que a união forçada era mesmo "criminosa", que ela não era a única criança vítima destas situações e que preferia morrer a ter de se casar nestas circunstâncias. Esse casamento significaria, tão simplesmente, que estaria casada aos 11 anos com alguém que não conhece e não ama, provavelmente muito mais velho que ela e que acabaria refém na sua própria casa, sem acesso à educação e à vida em geral, com excepção daquilo que o seu marido lhe permitisse aceder. 
Coisas tão simples como um vídeo no Youtube ou o simples acesso à internet, tornar-se-iam realidades distantes para esta criança caso, efectivamente, se tivesse casado. Já para não falar que a sua infância acabaria ali e seria forçada a viver com uma realidade demasiado adulta para a sua idade: casamento, vida sexual, filhos, etc. Porém, e felizmente, o tio opôs-se à união e acolheu a sobrinha, ajudando-a a fugir dos pais. A menina denuncia, particularmente, a sua mãe, acusando-a de a querer "vender".

Fazendo minhas as palavras desta declaração conjunta da ONU sobre os direitos das crianças que denuncia este tipo de práticas, só tenho a dizer que é demasiado revoltante e sinto-me impotente, o que me revolta ainda mais. Leiam:

«Todo ano, cerca de 10 milhões de meninas são casadas antes de completar 18 anos de idade. No mais terrível destes casos, as meninas muito jovens, como as de oito anos de idade, estão sendo casadas com homens que podem ser três ou quatro vezes mais velhos.
O casamento infantil atravessa países, culturas, religiões e etnias; 46% das meninas menores de 18 anos são casadas no Sul da Ásia; 38% na África Subsaariana; 29% na América Latina e no Caribe; 18% no Oriente Médio e no Norte da África; e em algumas comunidades na Europa e na América do Norte também.
O casamento de crianças é uma violação de todos os direitos da criança. Ele força as crianças, especialmente as meninas, a assumir responsabilidades para as quais elas não estão muitas vezes física e psicologicamente preparadas.
As meninas que são forçadas a casar enfrentam uma vida de violência no lar, onde são física e sexualmente abusadas, sofrem tratamento desumano e degradante e, finalmente, a escravidão.
Casamentos precoces também impactam o direito das meninas à educação, à saúde e à participação nas decisões que as afetam. As meninas que se casam cedo muitas vezes abandonam a escola, reduzindo significativamente a sua capacidade de adquirir habilidades e conhecimentos para tomar decisões informadas e obter renda. Um obstáculo para as meninas e para o empoderamento das mulheres, essa realidade também dificulta a sua capacidade de se livrar da pobreza.
‘Crianças noivas’ são mais propensas a engravidar em uma idade precoce e, como resultado, enfrentam um maior risco de morte materna e lesões devido à atividade sexual precoce e à gravidez.»
Vejam o artigo completo aqui. Excerto retirado da Declaração conjunta emitida pelo Comitê das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança; pelo Comité das Nações Unidas sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher; pelo Representante Especial do Secretário-Geral sobre a violência contra as crianças; pelo Relator Especial da ONU sobre venda de crianças, prostituição infantil e pornografia infantil; pelo Relator Especial da ONU sobre formas contemporâneas de escravidão, incluindo suas causas e consequências; pelo Relator Especial da ONU sobre a violência contra as mulheres; pelo Relator Especial da ONU sobre o tráfico de pessoas, especialmente mulheres e crianças; e pelo Grupo de Trabalho da ONU sobre Discriminação contra as Mulheres em Direito e na Prática.
Alguns chamam a isto casamento, outros - como eu - chamam pedofilia e abuso de menores. "Casar" uma criança de 11 anos não tem dignidade nenhuma, é um acto de violência gravíssimo para a liberdade pessoal de cada individuo. É pedofilia, porque "casar" uma criança de 11 anos com um velho é pedofilia...mais nada! É uma ofensa apelidar um acto destes de casamento, quando o casamento pressupõe amor e liberdade, duas componentes essenciais e que falham, por completo, em uniões deste género. É uma união forçada, onde a criança é obrigada a aceitar um destino e uma realidade que não escolheu, nem nunca escolheria. É uma união que obriga meninas a tornarem-se adultas muito cedo e em pouco tempo. É um choque emocional que, certamente, deixa marcas permanentes e irreversíveis no corpo e na mente destas crianças. Não só perdem toda a sua liberdade, como ainda se tornam escravas dos seus maridos, em todos os sentidos. Eles, pelo contrário, "ganham" alguém em quem "mandar", sendo que, geralmente, têm mais do que uma mulher para fazer o que bem entenderem.

Não admira que muitas mulheres prefiram a morte a uma situação destas. De facto, há coisas bem piores que a morte e eu se tivesse a infelicidade de nascer num país destes, onde os direitos humanos são violados todos os dias, com principal enfoque nas mulheres, acho que preferia matar-me caso, claro, não conseguisse fugir. Que nojo! Que revolta!

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